
Artigo escrito por Paulo Henrique Brazão* para o Jornal Nossa Seara, edição 49, Janeiro de 2012
Uma frase ecoa entre irmãos cristãos, em especial os neopentecostais, como mantra e principal dogma de muitos: “Deus é fiel”. Longe de mim causar polêmicas com slogans ou pilares alheios, porém há tempos essa curta sentença me encuca. Acredito eu que essa afirmação, embora simples, seja um pouco equivocada. Não porque Deus não nos seja fiel, mas porque é fácil e simplista colocar tudo nas mãos d’Ele, isentando de nós a responsabilidade de ser-Lhe fiel.
Muitos daqueles que entoam essa frase são os mesmos que, com freqüência, se decepcionam com suas religiões de origem ou de passagem, em especial aquelas que exigem diuturnamente do livre-arbítrio, do bom-senso e da responsabilidade individual para o bem coletivo, como a Umbanda e o Espiritismo Kardecista. Entregam-se por completo a uma nova religião ou uma nova vertente, como se a anterior não servisse mais, não os completassem; buscando, assim, um arrebanhador de ovelhas, que simplesmente aponte a direção para onde a massa deve seguir, sem a necessidade de racionalizar. E caem no discurso minimalista de que “Deus é fiel”, muitas vezes isentando de cada um a responsabilidade de sermos fiéis a Deus.
E quando se deparam com a primeira grande decepção de suas vidas pós-conversão? É comum vermos dois cenários: a ignorante revolta contra Deus ou a total abnegação, com a fácil declaração de que Ele quis assim. E o que nós fizemos para sermos ou não merecedores dessa situação? E o que os nossos guias tentam nos instruir e, por vezes, nos cegamos para seus ensinamentos? E a moral que cada um deve carregar consigo e pregar?
É comum vermos irmãos de fé se desligando de terreiros nas primeiras decepções ou dificuldades que enfrentam. Costumo dizer desde a primeira turma de estudos que ingressou na SEFA que “terreiro não é bar de esquina, que caso eu ache que não estou sendo bem atendido, eu levanto e vou embora”. Engajar-se com um terreiro é assumir um compromisso (mais um entre muitos os que temos nessa vida, e não um fardo dificílimo de carregar) e, como tal, deve ser encarado com prazer, com a sensação de cumprimento de dever e, principalmente, de amor a Deus, pois não há maior síntese de entrega e devoção a Ele que fazer a caridade ao próximo. E, seja qual o local, vertente, filosofia ou escola onde nos encontremos, sabemos que os nosso guias - esses sim, fiéis aconselhadores - estarão ao nosso lado. E, como seres evoluídos que são, têm uma imensurável capacidade de adaptação de trabalho, desde que o propósito tenha como única meta a caridade.
Por isso, antes de enchermos a boca para falar que Deus é fiel, reflitamos primeiro se nós somos fiéis a Ele. Somos também fiéis aos nossos guias? Somos fiéis à religião e à Casa que escolhemos estar? Em meio a tantas indagações, a certeza virá à luz, mais cedo ou mais tarde.
*Paulo Henrique Brazão é jornalista, escritor e Subcomandante Chefe de Terreiro (SCCT) da SEFA.
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